Basf
21/06/2011 09h33 - Atualizado em 20/04/2016 02h41
Avestruz

Merenda investigada em Campinas (SP)

A carne de avestruz que entrou para o cardápio da merenda escolar em Campinas há três anos, acompanhada de uma propaganda enaltecedora, é o novo item na lista de contratos suspeitos firmados pela prefeitura. O alimento foi excluído do cardápio há três meses, sem justificativa aparente, mas deixou desconfianças sobre seu fornecimento à Ceasa, responsável pela merenda em Campinas. O principal fornecedor foi uma empresa da família Piveta, com matriz em Mato Grosso do Sul e uma das maiores do ramo. Os donos da empresa são conhecidos de José Marcos Velasco, que também foi produtor da carne no MS e que deixou a diretoria financeira da Ceasa na semana passada, no rastro de baixas sofridas na empresa após o escândalo de fraudes na administração direta e indireta de Hélio de Oliveira Santos. O assunto avestruz entra na pauta da Câmara a partir desta semana (leia texto abaixo).

Na semana passada, quando deixava o cargo, Velasco negou que tenha fornecido a nobre carne, ainda que por meio de terceiros, à própria Ceasa. Ele diz que encerrou suas atividades como criador em 2005, mas a baixa no Ministério da Agricultura data de 2009. A relação de amizade do ex-diretor com os Piveta é confirmada por um dos integrantes da família, Charles Fernando, que comanda uma filial empresa em Maringá. É a filial paranaense que aparece como vencedora da licitação em março de 2010, a última para este fim, já que o contrato encerrou em março deste ano.

Monopólio

Os Piveta amigos de Velasco monopolizaram o fornecimento da carne à Ceasa durante os três anos do programa. Na última licitação, a empresa Iotti, do ramo de carnes e com sede em Jundiaí, ganhou o pregão presencial (modalidade de licitação na Ceasa) para fornecer o filé, a parte mais nobre do avestruz, por R$ 25,94 o quilo. A previsão era fornecer 10 mil quilos por um ano de contrato, mas não vendeu nenhum. “Ganhamos, mas não levamos”, diz um representante da empresa. A justificativa da Ceasa para a Iotti é que não tinha dinheiro. Apenas os Piveta faturaram, com os outros cinco cortes da ave.

O registro de preços das vencedoras foi publicado no Diário Oficial em março de 2010, mas a Ceasa justifica que isso não é garantia de compra. No entanto, o lote dos Piveta foi mantido, ou seja, 15,5 mil quilos. Mas o melhor negócio dos Piveta com a Central de Abastecimentos de Campinas foi no ano anterior.

Em 2009, a Ceasa comprou 54.601 quilos de carne de avestruz para a merenda escolar – mais que a carne suína (33,7 mil) e peixe (24,2 mil). Considerando o preço médio dos sete itens que a Piveta apresentou na concorrência vencedora, foram gastos R$ 887,6 mil dos cofres públicos com o alimento.

Valor nutricional

O preço alto da carne do avestruz para a administração municipal não foi fator preponderante para a Ceasa quando o alimento foi incluído no cardápio escolar. A iniciativa foi amplamente divulgada pela prefeitura, que se colocou como pioneira. Velasco chegou a sugerir que era mais em conta que a carne do boi na época. O que importava, na avaliação dele, era proporcionar uma alimentação saudável das crianças, já que a carne de avestruz tem tem alto valor nutricional, com menos gordura e rica em ômega 3.  

Avestruz, Candia e exonerações

A carne de avestruz saiu do cardápio das crianças nas escolas e os principais responsáveis pela compra dela deixaram seus cargos na Ceasa. O primeiro foi o vice-prefeito e então presidente da central de abastecimento, Demétrio Vilagra (PT), exonerado após o escândalo envolvendo fraudes na administração municipal. Velasco, diretor financeiro desde 2008 e o responsável pela aprovação das compras, deixou o cargo em 31 de maio. O nome dele não aparece na lista de suspeitos das fraudes e a saída seria em solidariedade a Vilagra.

Na mesma semana, Fabiana Candia, gerente do departamento de merenda escolar em Campinas, foi exonerada do cargo na Ceasa. O nome dela também não figura na lista do Ministério Público, mas o seu marido, Ricardo Candia, ex-diretor de Controle Urbano, foi um dos presos na operação da Polícia Civil. Mas Fabiana é servidora da Secretaria da Fazenda do governo do Mato Grosso do Sul. Em 2007, ela pediu licença de três anos para tratar de “interesse particular” e entrou na Ceasa nesta condição. Em julho do ano passado, Fabiana pediu a renovação da licença por mais três anos, e pelo mesmo motivo. Abaixo de Velasco, era ela quem dizia o que comprar para a merenda nas escolas. Até a mulher do sobrinho dos Candia deixou o cargo na Ceasa após os escândalos.

Câmara investiga

O caso avestruz entra agora na pauta do Legislativo. O vereador Artur Orsi (PSDB), autor do pedido de impeachment do prefeito, protocola esta semana um requerimento para que a Ceasa e a administração municipal expliquem em que condições foram adquiridos os cortes da carne de avestruz.

Outro lado

Por escrito, ainda por meio da assessoria da Ceasa, José Marcos Velasco, disse ter conhecido Charles Fernando por ocasião do primeiro processo licitatório (2008), mas admitiu já conhecer o pai dele, Manoel Piveta Assunção, também produtor rural em MS. Sobre a possibilidade de ter fornecido carne de avestruz à Ceasa, afirmou que só criou a ave entre 1999 e 2004. Arrendou a fazenda e, a partir de 2005 passou a criar ovinos. Garante que pediu baixa no Ministério da Fazenda como criador de avestruz, mas disse ter ficado surpreso quando descobriu, em 2009, que ainda era registrado como criador. Entrou com novo pedido de baixa e só então foi atendido.

Charles Fernando Piveta, também por escrito, confirmou conhecer Velasco apenas por ocasião do pregão presencial na Ceasa, mas reconheceu que o ex-diretor financeiro tem ligações com a família. “Meu pai o conheceu a mais tempo”.

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