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23-Ago-2018 13:59 - Atualizado em 23/08/2018 14:21
Entrevista

Brasil precisa adotar um planejamento de longo prazo

Mauro Osaki, especialista em custos do Cepea-Esalq/USP fala sobre o mercado de grãos e comenta sobre o impacto dos embargos à carne brasileira

Por Humberto Luis Marques

 

O Brasil é um gigante no agronegócio mundial. Os números produtivos e os de exportação falam por si próprios. O país está para colher a segunda maior safra de sua história, com mais de 200 milhões de toneladas de grãos. No mercado externo, lidera em diversas commodities agrícolas, assim como tem posição de destaque em proteína animal. Nos embarques de carne de frango ocupa a primeira posição, assim como no de cortes bovinos, ficando entre os quatro maiores exportadores de carne suína. Nos últimos meses, no entanto, o Brasil vem sofrendo com embargos a sua carne no mercado internacional.

Os setores de proteína animal produzem um produto de alta qualidade e a baixo custo para o consumidor, não só atendendo ao mercado interno, mas também complementando a demanda alimentar de diversos países. No entanto, o Brasil precisa olhar para si mesmo, definir prioridades estratégicas e investir na melhoria de sua infraestrutura para se manter competitivo e com alta eficiência no campo. “Precisamos adotar um planejamento em longo prazo, projetando aonde o país quer chegar. É preciso levar a sério a questão sanitária”, reforça Mauro Osaki, pesquisador da área de Custos Agrícolas do Cepea-Esalq/USP.

Em relação aos grãos, apesar da perspectiva de alta produção nessa colheita, muitos agricultores trabalham com contratos futuros, indicando que parte da safra, principalmente milho, tende a já estar comercializada. “Não significa que mesmo tendo uma boa safra de milho, essa produção toda esteja disponível para o mercado doméstico, pois o produtor pode ter feito o contrato no ano passado, dando ao milho a ser colhido um destino certo”, comenta Osaki.

Nessa entrevista, o especialista em custos do Cepea-Esalq/USP fala sobre o mercado de grãos, comenta sobre o impacto dos embargos impostos por alguns mercados à carne brasileira, assim como discute economia e a conjuntura do país. Confira.

Suinocultura Industrial – O Brasil está para colher a segunda maior safra de sua história. Como isso irá impactar sobre os resultados do agronegócio desse ano? Os insumos estarão mais baratos para a produção de suínos e aves?

Mauro Osaki – Precisamos discutir essa questão em duas partes. Primeiro, a do farelo de soja, que é um dos componentes da ração, o qual sofre influencia do mercado internacional, tanto da Bolsa de Chicago quanto da taxa de câmbio. A taxa de câmbio é extremamente volátil, refletindo o cenário internacional resultante da guerra tarifária entre a China e os Estados Unidos. Isso leva a uma possibilidade de elevação da taxa de juros do mercado americano e as incertezas políticas do Brasil. Teremos eleições nesse ano. Não sabemos quem será o próximo presidente ou quais serão as suas decisões em relação ao país. O resultado da eleição reflete diretamente na taxa de câmbio, o qual terá impacto nos componentes e nos insumos, que estão indexados a ela. Com relação ao milho, que é um dos principais itens da ração, já temos parte da produção contratada para o mercado externo. Não significa que mesmo tendo uma boa safra de milho, essa produção toda esteja disponível para o mercado, pois o produtor pode ter feito o contrato no ano passado, dando ao milho a ser colhido um destino certo. Possivelmente, não ficando no mercado doméstico.

 

SI – O cenário internacional de grãos vive um momento demandante?

Osaki – Uma das forças motrizes de grãos é o mercado externo, puxado principalmente pela China. Nós temos uma série populacional monitorada há 40 anos, quando foi iniciada a reforma econômica, deixando o mercado mais liberal. Houve um crescimento bastante expressivo nos últimos 20 anos, desde os anos 2000. Isso trouxe ganhos expressivos de renda para a população chinesa. Automaticamente, gerando maior demanda por alimentos. Por outro lado, há uma tendência de os países atuarem para se tornar menos dependentes do fornecimento de outros países do mundo.

 

SI – Isso é uma tendência, a dos países buscarem sua autossuficiência na produção de alimentos?

Osaki – Nenhum país pretende ficar dependendo apenas do Brasil como fornecedor de alimentos. Ninguém quer ficar só na dependência de importações do País, vão acabar buscando também outros mercados. O Brasil precisa acordar para essa situação e buscar resolvê-la.

 

SI – O produtor brasileiro de grãos terá uma rentabilidade satisfatória nessa safra?

Osaki – O Brasil tem conseguido boas safras nos últimos anos, mas devido a instabilidade do mercado, os custos têm aumentado. Alguns insumos utilizados para melhorar a produtividade também têm encarecido um pouco mais o custo de produção. O uso de insumos mais eficientes tem melhorado a rentabilidade, mas nem sempre dado a melhor resposta no campo porque há o fator das condições climáticas. No entanto, comparado com outras atividades econômicas, ainda está com resultados positivo para a produção. Outros países têm reclamado da pouca rentabilidade nessa área, principalmente os Estados Unidos. A rentabilidade está baixa devido as quedas dos preços internacionais dessas commodities. No caso brasileiro, isso foi compensado pelo câmbio. Nos Estados Unidos não há essa ferramenta para uma compensação doméstica de demanda.

 

SI – Com relação ao câmbio brasileiro, nos níveis em que se encontra hoje, está vantajoso para o exportador?

Osaki – Sim, o produto brasileiro é bastante competitivo. Poderia ser mais competitivo ainda não fosse a ineficiência. Onde o Brasil da burocracia atrapalha o Brasil da eficiência.

 

SI – O setor cárneo sofre com alguns embargos internacionais, como os da carne de frango, suína e a bovina. Como o senhor analisa o impacto desses embargos sobre o mercado doméstico?

Osaki – Uma tragédia. O brasileiro acredita que pode deixar tudo para a última hora. Só que o mercado internacional é bem competitivo; e o brasileiro precisa entender isso. Se o país quer realmente manter a liderança nas exportações de proteína animal e insumos agrícolas, é preciso um mínimo de seriedade no controle de sua fronteira. Tanto na entrada quanto na saída de doenças possíveis de serem transmitidas, assim como também no controle de qualidade. No mundo todo, se fala hoje sobre a questão da rastreabilidade de alimentos. Só que parece que o Brasil rasgou essa cartilha. Claro, as grandes empresas estão operando de forma correta e honesta, mas possivelmente uma pequena parcela não esteja.

 

SI – O agronegócio continua como o principal motor da economia brasileira, independente dessas dificuldades enfrentadas?

Osaki – O agronegócio sempre foi o motor econômico do país, desde o Brasil colônia. A agropecuária sempre foi a matriz de desenvolvimento do país, assim como continua sendo. O caso é que não precisamos depender somente dela. O Brasil precisa que outros setores sejam tão competitivos quanto o do agronegócio, para diminuirmos a participação do agro sobre o PIB. O país é muito dependente dele para a geração de riquezas. Se observarmos em termos percentuais, seria necessário um percentual de equilíbrio entre o agronegócio e os outros setores. Os Estados Unidos, por exemplo, não deixam de ser um importante exportador de grãos, mesmo assim são uma potencia em outras áreas econômicas. A participação do setor agro americano na geração de riquezas do país é muito forte. Isso é o que temos de buscar.

 

SI – Um dos problemas que o Brasil enfrenta é a questão logística. Como o senhor analisa essa questão, já que temos privilegiado o modal rodoviário?

Osaki – A opção pelo modal rodoviário não é de hoje. Desde a saída de Dom Pedro, vivemos essa situação. Dom Pedro II foi um dos homens que mais construiu ferrovias nesse país. No período imperial se ampliou toda a área territorial desse país por hidrovias, principalmente. Só que esse direcionamento mudou e, para tentar acertar os transportes do país, se optou por sucatear o setor ferroviário, dando maior prioridade ao setor rodoviário. Agora o país se tornou um refém disso. O nosso setor não é competitivo. Não há na literatura mundial estudo que mostre o setor rodoviário mais competitivo do que o hidroviário e ferroviário. Ocorre que o Brasil continua a insistir na mesma prática adotada desde a década de 1950. Só que o mercado ficou mais competitivo. É preciso adotar as mais diversas medidas. Não é de hoje que se fala desses gargalos, do fato de os nossos modais serem muito caros. Tem muita coisa para ser ajustada. O Brasil precisa fazer uma reforma estrutural, deixando o mercado mais liberal e competitivo, trazendo o mercado nacional para o século XXI. Caso contrário, ficaremos fora desse novo momento. O que a Rússia e a China fizeram em 2004 é impossível de continuar com as mesmas políticas adotadas na década de 1990.

 

SI – A economia brasileira dá alguns sinais tímidos de melhora. Como o senhor vê o momento econômico brasileiro?

Osaki – É tímido porque vivemos um momento de falso crescimento, só que agora caímos na realidade. Não se pode dar dinheiro fácil, sem ter a contrapartida do aumento de produtividade. Precisamos melhorar os nossos índices produtivos. Fazer o máximo de sacrifício para os que têm um limite de renda, gerando um produto de qualidade. A resposta dada pelo campo se deu na década de 1990 no Brasil. Hoje, o nível de produtividade do setor agro é muito maior. Quem não tinha condições competitivas, foi varrido do setor. Com a incorporação de tecnologias, temos como ampliar a nossa produtividade. É preciso diminuir a burocracia, porque senão o nosso produto não será destinado com competitividade ao mercado internacional. Há sinais de recuperação, mas enquanto não estiver definido o próximo presidente, não temos um governo regular.

 

SI – Por que o senhor afirma isso?

Osaki – O atual governo está totalmente fragilizado, sem conseguir aprovar as reformas que o Brasil precisa e são essenciais para a reestruturação do País. Há 20 anos não fazemos nenhuma reforma estrutural de peso, seja a tributária, política, previdenciária e do judiciário. Todas precisam de uma regularização, mas todos empurram com a barriga até o último momento. É uma posição bem diferente de outros países, que acordaram para essa situação e viram um problema futuro, buscando soluções para resolvê-lo.

 

SI – Essa disputa comercial entre os Estados Unidos e China pode de alguma maneira beneficiar o Brasil no comércio internacional?

Osaki – Ninguém ganha com essa disputa porque ela gera incertezas. No curto prazo, o Brasil pode ter alguns ganhos, mas no longo prazo é ruim para todos. Só que insisto, o país precisa resolver alguns entraves, como a questão dos portos e burocracia. O país está perdendo o bonde, toda a sua força de negociar com união europeia e outros países ou blocos. É preciso abrir um pouco mais a economia e negociar.

 

SI – O Brasil tem focado suas ações comerciais no sudeste asiático. O senhor acredita que internacionalmente ali é uma das principais potencias para o Brasil ampliar seu mercado externo, como grande fornecedor de alimentos?

Osaki – O Brasil precisa ter parceiros comerciais no mundo inteiro. Boas relações comerciais com todos os países, mas é necessário levar mais a sério os negócios. Precisamos adotar um planejamento em longo prazo, projetando aonde o país quer chegar. É preciso levar a sério a questão sanitária, como Austrália e Chile levam. Qualquer pessoa que vier para entrar e sair do país tem de ter um controle rigoroso de entrada e saída para não ter problemas de acesso à doenças. Para abrir mercado no mundo inteiro, precisamos ter competitividade em toda a nossa estrutura. São problemas de vários anos e ninguém realmente tenta resolver isso.

 

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