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16-Ago-2018 10:04 - Atualizado em 16/08/2018 10:15
Entrevista

Como conflitos entre EUA e China e fechamento de mercados impactam os setores produtivos do Brasil

A tensão comercial entre as duas maiores economias do mundo pode trazer impactos e mudar o fluxo do comércio

Por Anderson Oliveira

Os conflitos comerciais entre Estados Unidos e China têm gerado incerteza para a economia global. Os impactos já são sentidos, principalmente no agronegócio norte-americano. Ainda não é possível prever o cenário que se desenhará após o fim dessa disputa, mas a expectativa é de que o fluxo do comércio mundial se alterará de alguma forma. Um dos mais prováveis resultados é de que a China poderá procurar outros mercados para seus produtos. Os reflexos podem ocorrer, diante disso, nos mercados de grãos e de carnes. A depender de como EUA e China se posicionarem, milho e soja, insumos fundamentais para a avicultura e a suinocultura, podem ficar mais caros e aumentar os custos dos produtores.

A revista Avicultura Industrial conversou com Paulo Roberto Molinari, diretor da Safras & Mercado, economista pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação em agribusiness. Ele atua há 28 anos em análise econômica e de mercados agrícolas. Segundo Molinari, as incertezas oriundas do conflito EUA x China se juntam a outras já vividas pela avicultura brasileira. Para ele, são turbulências normais em qualquer setor. No entanto, por erros internos e falhas na programação de produção alguns setores sofrem mais com estas volatilidades. Ainda assim, com a população mundial e a renda em crescimento o futuro é garantido para empresas do agronegócio.

Avicultura Industrial - O cenário econômico mundial passa por momentos de incertezas devido à disputa comercial entre Estados Unidos e China. De que modo essa questão tem afetado a produção brasileira de grãos e carne até o momento ou como pode vir a afetar?

Paulo Roberto Molinari - Até o momento não há qualquer interferência na atual produção de grãos brasileira, mas, deveremos ter mudanças nas safras a frente. Inicialmente, o quadro é péssimo para o produtor norte-americano, o qual terá preços abaixo de US$ 8.40/bu ou seja, abaixo do seu preço mínimo local. Isto deverá ser desmotivador para o plantio de soja nos EUA e poderá, de alguma forma, afetar preços futuros. O milho também tem preços abaixo do preço mínimo local de US$ 3.70 e não será surpresa se em 2019 as duas culturas apresentarem cortes de área devido ao quadro gerado pela Guerra Comercial. Depois, o quadro de preços é muito favorável a soja brasileira e esta cultura continuará ganhando espaço em detrimento de outras culturas, como o milho no Brasil. Isto indica que a preferencia pelo plantio de soja deverá permanecer o que cria um ambiente de preços ainda especulativos para o milho no primeiro semestre no mercado interno. Para a produção de carnes brasileira os efeitos também podem ser reduzidos. A concentração pode ocorrer de forma mais clara na carne suína, aonde a China impostava perto de 127 mil tons de origem EUA. Parte deste volume pode passar a ter origem do Brasil, o que ajudaria as exportações brasileiras de carne suína e a produção interna. Na carne de frango e bovina a participação dos EUA na China é muito discreta. Neste caso, o efeito é mais da retirada de um grande potencial competidor no mercado chinês, do que necessariamente um efeito direto positivo para o Brasil. O grande risco é econômico. A desaceleração da economia chinesa pode impactar no perfil de demanda local e global. O crescimento econômico mundial pode ser afetado nos próximos anos e isto acomodar o ritmo de demanda para produtos do agro. A fase subsequente poderá devida para uma guerra de moedas, ou seja, com fortes desvalorizações cambiais na China e nos emergentes de forma a tentar reequilibrar o quadro competitivo mundial. Mudanças no fluxo de comércio e de investimentos serão evidentes nos próximos meses se não houver uma recomposição das negociações entre EUA e China. Além disso, há novas frentes comerciais em que os EUA pretendem atingir, como Europa e Rússia. 

AI - Quais seriam as possíveis mudanças oriundas dessa disputa travada entre as duas maiores economias do mundo?

Paulo Roberto Molinari - Basicamente, o fluxo de comércio se alterara radicalmente. China poderá procurar outros mercados para seus produtos e atingindo outras economias. Prêmios da Soja continuarão elevados na América do Sul e carne suína poderá ter alavancagem de vendas na exportação. Plantio da safra 2019 nos EUA poderá ter retração no milho e na soja devido a preços baixos. Argentina e Brasil poderiam ter boom de exportação de soja em 2019 se EUA não conseguir manter suas vendas para a China. Há impactos econômicos prováveis com retração da atividade econômica global e elevação de risco para emergentes - cambio. Mercados terão que se recompor nos preços relativos com o ciclo de tarifação de produtos entre EUA e China. Efeitos são discretos para a produção de carnes brasileira, porém, situação retira um grande competidor internacional no mercado chinês.

AI - De que maneira o Brasil pode ser afetado por essas tensões comerciais?

Paulo Roberto Molinari - Soja, algodão e carne suína são os produtos do agro brasileiro que podem ser imediatamente beneficiados. Demais produtos poderão ter efeitos indiretos, como no milho em caso de corte de plantio nos EUA em 2019. O quadro de guerra comercial traz maior risco para os países emergentes e afetar investimentos e câmbio.

AI - Como grãos como milho e soja – insumos fundamentais para a produção de proteína animal no Brasil – podem ser afetados?

Paulo Roberto Molinari - Na soja grão, já estamos sendo afetados devido aos prêmios em forte elevação. Isto tornará as indústrias esmagadoras internas no Brasil menos competitivas em relação ao mercado internacional no farelo e óleo de soja. Portanto, devido à soja mais cara devido à demanda chinesa no Brasil, os preços do farelo de soja e óleo acabarão também se descolando do preço internacional e ficando mais caros no Brasil para o setor carnes. No caso do milho, os efeitos são menores. O foco do produtor brasileiro no plantio de soja em detrimento do milho continuará mantendo um primeiro semestre com preços altos. Contudo, temos a oportunidade do plantio da safrinha, o que equilibra o abastecimento interno. O maior risco no milho é um desanimo grande do produtor dos EUA no plantio em 2019 e o quadro de preços apontar para fortes altas no mercado internacional. 

AI - Como o setor produtivo brasileiro pode enfrentar esse novo desafio, que é o aumento de custos?

Paulo Roberto Molinari - Basicamente, o setor precisará ajustar a produção à capacidade de demanda interna e externa. Neste momento, os mercados não estão aceitando excedentes e a avicultura e a suinocultura brasileira precisam aprender a ajustar a produção à demanda. Isto possibilita recompor preços e manter margens. Não há foco positivo de demanda de curto prazo e, portanto, o ajustar terá que surgir na oferta. A outra questão é a inconstitucional tabela de fretes no Brasil. O setor privado apoiou a greve dos caminhoneiros e agora pagará o preço do aumento de custos que é inevitável. Se for mantido o tabelamento o quadro será de recomposição de preços na ponta final como única forma de reequilibrar margens.

AI - A avicultura no Brasil tem vivido momento de turbulências, com embargos da União Europeia, tarifas antidumping da China e uma greve de caminhoneiros que afetou o setor produtivo. Como o Senhor tem acompanhado esse cenário?

Paulo Roberto Molinari - São turbulências normais em qualquer setor. Infelizmente, por erros internos, disputas comerciais externas e falhas na programação de produção, alguns setores sofrem mais com estas volatilidades. No caso da avicultura com o seu ciclo de produção, a situação se agrava se as medidas não forem adotadas de forma mais direta. Redução de produção e ajuste à situação econômica e de mercado parece ser a tomada de decisão mais evidente em situações como a atual.

AI - Devido a impactos causados pelos embargos da União Europeia, a BRF tem adotado algumas medidas. Concedeu férias coletivas em unidades fabris, encerrou abates de perus e adotou layoff na planta de Chapecó (SC). Como o Sr. avalia a atual reestruturação operacional e financeira da companhia?

Paulo Roberto Molinari - Notamos que a companhia vinha tendo um avanço rápido no endividamento e uma estruturação de produção exagerada para as atuais condições de mercado e diante dos acontecimentos internacionais. Parar, recompor para recomeçar parece uma atitude correta e que oferece sinais muito positivos para o futuro da empresa, apesar de causar traumas imediatos em alguns polos de produção no Brasil.

AI - Ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, Blairo Maggi, afirma que o mundo vive um recrudescimento do protecionismo. Nesse sentido, o País sofre com medidas como as adotadas pela União Europeia e a China. O senhor também acredita que a avicultura brasileira é alvo de protecionismo destes mercados? Por que?

Paulo Roberto Molinari - Nos parece que nos casos de Europa e Rússia a situação se mistura entre falhas graves no sistema de produção brasileiro com atitude comercial externa de oportunidade. Ou seja, falhas brasileiras oferecem espaço para atitudes protecionistas. No caso chinês, o Brasil não tem utilizado a sua diplomacia para se contrapor a atitudes irreais no âmbito do agronegócio, como retaliar na mesma proporção. A grande questão do agronegócio nacional é de que o governo brasileiro não dispõe de adidos agrícolas aptos à realizar negociações bilaterais no ambiente do comercio. O que ocorre é que as empresas são atingidas e o Brasil envia o seu ministro da agricultura para negociar. Até que isso ocorra, o comércio é afetado e as empresas precisam remanejar sua produção e seu fluxo para outros mercados ou acumular estoques elevados. O caso da estapafúrdia tributação chinesa ao frango brasileiro mal foi abalizado pelo governo brasileiro, o qual se limitou a emitir nota de insatisfação. Por que não tributar produtos chineses que entram no mercado brasileiro abaixo dos custos de produção internos na mesma proporção? Efetivamente, o Brasil não esta apto a atuar no comércio mundial como um país, limitando-se a manter

AI - Como o Brasil pode atuar diante desse cenário de fechamento de mercados externos?

Paulo Roberto Molinari - Ações bilaterais. Se há fechamento de comercio para produtos brasileiros, a resposta deve ser proporcional ao protecionismo externo. É claro que as negociações sempre estarão presentes. Mas, a falta de diplomacia no ambiente do comercio mundial, bem como a ausência de adidos agrícolas capazes de entender o quadro regional comercial, nos deixa sujeitos a qualquer tipo de ação negativa aos produtos brasileiros. 

AI - Quais seriam os possíveis novos destinos da carne de frango brasileira? O que o País pode fazer para ampliar o número de parceiros no exterior?

Paulo Roberto Molinari - Na verdade, as empresas brasileiras continuam concentrando muito as suas vendas em países de maior potencial em volume e de renda, o que é estrategicamente normal. Contudo, muitas vezes deixa de atender mercados menores, mas que oferecem continuidade e frequência, o que é tão importante quanto os grandes volumes negociados para a Europa, por exemplo. Caribe, Ásia e África poderiam ter volumes elevados a partir de maior agressividade das empresas e acordos bilaterais entre governos. 

AI - A produção de carne de frango cresceu bastante nos últimos anos. Como o senhor avalia a participação brasileira nesse mercado?

Paulo Roberto Molinari - A população mundial e brasileira segue em crescimento. Com alguma renda crescente a demanda persiste em ritmo de expansão. Em alguns momentos de forma mais acelerada em outras deforma mais acomodada. O Brasil se tornou o grande exportador global devido à imensa capacidade de produção, com grande oferta de insumos e ótimas empresas produtoras.  Contudo, muitas vezes esta nossa capacidade razoável de produzir e o entusiasmo em conquistar mercados nos leva a erros estratégicos. Isto repercute no excesso de produção em relação a capacidade de demanda. As empresas precisam aprender a ajustar sua produção de acordo com o perfil econômico. Não é possível que em uma recessão histórica no Brasil em 2016/2017 e que continua em 2018, as empresas mantenham projeções significativas de crescimento. Ajustar produção e manter margens é o que o mercado brasileiro precisará aprender a coordenar daqui para frente. Somente ampliar produção pode parece bonito para as estatísticas, mas não necessariamente traz resultados as empresas. 

AI - Apesar de todo o cenário de turbulência, os representantes do setor da avicultura estão otimistas com o futuro. A avaliação é de que a carne de frango brasileira tem qualidade e que conseguirá ultrapassar esses problemas e continuar crescendo. Qual é a sua avaliação?

Paulo Roberto Molinari - Com população em crescimento, potencialmente na renda, o futuro é garantido para empresas do agronegócio. A questão continua sendo a nossa capacidade razoável de produção com o excesso de otimismo de curto prazo. Muitas vezes o mercado enxerga a China como um mercado bombástico para a demanda brasileira de carne de frango. Antecipam investimentos e esta projeção de demanda chinesa não vem ou demora a chegar. Isto gera excedentes que influenciam negativamente nos resultados. Portanto, em qualquer situação avaliar o cenário de forma realista, cortando excesso de otimismo, ajudam bastante nos resultados finais.

 

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