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Argentina

Crise entre governo e ruralistas na Argentina

Para analistas, a proibição às exportações de carne tem eficácia questionável e motivações eleitorais

Redação com informações de Valor
19-Mai-2021 08:38 - Atualizado em 19/05/2021 08:55

O veto da Argentina às exportações de carne por 30 dias deflagrou uma nova crise entre o governo e o setor rural. Na noite de segunda-feira, o presidente Alberto Fernández anunciou a suspensão da venda de carne bovina para o exterior com o objetivo de reduzir o preço no mercado interno. Produtores anunciaram que deixarão de vender carne. Segundo analistas, a proibição tem eficácia questionável e motivações eleitorais.

“As relações entre o campo e o governo Fernández nunca foram boas, porque o setor rural vê o kirchnerismo com desconfiança”, diz Andrés Borenstein, da consultoria Econviews. “Mas esse é, sem dúvida, o pior momento da relação entre as partes.”

Entre abril de 2020 e abril de 2021, o preço da carne subiu 100%, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca, enquanto a inflação ao consumidor foi de 46,3%. Mesmo assim, o veto às exportações é questionável como ferramenta para reduzir o preço no mercado interno, afirmam.

“O veto não terá impacto significativo. Na lógica do governo, proibir as exportações aumentará a oferta no mercado local e fará os preços caírem. Mas os produtores vão paralisar as atividades”, diz Nicolás Alonzo, da consultoria Orlando J Ferreres & Asociados.

Ontem representantes da Mesa de Enlace, grupo que reúne as principais entidades do agronegócio argentino, decidiram paralisar atividades por nove dias. A decisão de associações como Sociedade Rural Argentina (SRA) e Confederações Rurais Argentinas (CRA) deve reduzir a oferta e, consequentemente, pode elevar os preços.

Esta não é a primeira vez que a Argentina proíbe exportações de carne. Em 2006, o governo da então presidente Cristina Kirchner vetou vendas ao exterior, o que levou à perda de mais de 10 milhões de cabeças de gado e elevou o preço no médio prazo. “Diante da medida, os produtores liquidaram estoques [as matrizes de reprodução] e passaram a se dedicar a outras produções, como soja e milho”, afirma Borenstein.

Em comunicado, a Sociedade Rural de Rosário lembrou que à época houve não somente perda do estoque bovino, mas escassez de carne no mercado doméstico, o que fez o preço da carne subir novamente. Isso é explicado porque o processo de produção de carne leva cerca de dois anos.

Representantes do setor agropecuário compararam a decisão do governo à resolução 125, de 2008, que estabelecia imposto às exportações de soja que variavam conforme o preço da commodity no mercado internacional. A medida resultou em quatro meses de enfrentamento entre Cristina Kirchner e o setor. “Não queremos chegar a esse ponto”, disse Jorge Chemes, presidente da CRA.

O veto do governo às exportações de carne tem motivação eleitoral, afirma Gabriel Brasil, da consultoria Control Risks. “Com a inflação superando em muito a expectativa do governo, há risco de a aprovação de Fernández ser impactada, em um ano em que ele precisa de apoio nas eleições legislativas, em outubro”, argumenta. “Mas esse mecanismo não resolve a questão estrutural da inflação e terá custos políticos para o presidente junto aos governadores.”

Ontem os governadores de Córdoba e de Santa Fé criticaram a medida - que seria como “tropeçar duas vezes na mesma pedra” - e afirmaram que mudar as regras do jogo prejudicam a produção no longo prazo.

A proibição anunciada na segunda-feira mostra que sempre que a situação aperta, o governo se fecha, diz Borenstein.

Indica ainda a preferência que Fernández tem dado a políticas heterodoxas, acrescenta Gabriel Brasil. “Essa abordagem econômica encabeçada pelo ministro de Produção, Matías Kulfas, tem se sobressaído em relação a alternativas mais moderadas, representadas pelo ministro da Economia, Martín Guzmán”, afirma. “Se olharmos os principais eventos de política econômica dos últimos dois anos, na maioria deles Fernández optou por medidas menos favoráveis aos negócios do que se acreditava que ele faria quando era candidato.”

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