Guia Gessulli
30-Out-2018 10:35
Comentário avícola

Efeitos da fitase na redução de peito amadeirado de frangos de corte

Por Alexandre Barbosa de Brito, médico veterinário, PhD em nutrição animal

Rotineiramente me perguntam como uma fitase atua na redução de problemas endógenos dos animais, como no caso do peito amadeirado. De forma geral as fitases possuem um papel bem delineado no modelo biólogico, pois sua ação se fundamenta na retirada de fósforo do anel de fitato, reduzindo a escala de ésteres e incrementando o volume de inositol. Esta escala de transformação é acelerada quanto maior for a dosagem da enzima utilizada e sua atratividade para com o substrato.

A ação sobre o IP6 (anel de fitato integro) e em seus ésteres seguintes (IP5 => IP4 => IP3 => IP2 => IP1) são provenientes exclusivamente pela ação desta enzima, sendo que fitases distintas podem possuir cinéticas distintas, como já apresentado em colunas anteriores.

Se esta é a finalidade de uso de uma fitase (retirar fósforo do anel de fitato); como seu emprego pode ajudar a reduzir algumas ocorrências de qualidade de carcaça como a incidência de peito amadeirado ou mesmo de síndrome ascítica em frangos de corte? Como uma ação que quebra de fitato se relaciona com  melhoria de desenvolvimento tecidual de frangos de corte?

Esta resposta refere-se a melhoria de solubilidade de alguns microelementos pela ação destas enzimas no anel de fitato. Para iniciar a composição deste raciocínio devemos ponderar em como o fitato interfere na digestibilidade mineral no intestino das aves. Este anel de fósforos e carbonos possuem a propriedade de quelação com Ca, Zn, Se e Fe, reduzindo muito a solubilidade destes minerais em pH acima de 6 (pH onde a inicia-se a absorção no trato gastrointestinal dos animais). O IP6 é realmente deletério na redução desta solubilidade, como demonstrado no trabalho de Toreti et al. (2018), onde os autores avaliaram o tratamento de fitase em alimentos à base de soja quanto a ação no anel de fitato e melhoria de solubilidade de minerais. Os autores observaram uma melhoria de solubilidade in vitro de 2.0 para 20.8% para o Ca, 2.2 para 37.1% para Fe e 38.8 para 67.4% para Zn (P<0.05), quando não se usava ou usava-se a fitase nestes alimentos, respectivamente. Isso demonstra o grande papel desta enzima no aproveitamento de minerais (além do fósforo) em dietas ricas em fitato.

Em um pH ácido, independentemente do tipo de éstere de fitato, os minerais tendem a estar solúveis, por isso a ação de uma fitase de alta afinidade para com seu substrato e de forma rápida se torna imprescindível na faixa de pH de 2-6. Para exemplificar esta ação, em outro estudo, Xu et al. (1992) demostraram (Figura 01) que existe uma piora na solubilidade de Ca e Zn de 10 e 98%, respectivamente, com a simples alteração de uma escala de pH 4 para 5 pontos. Para o Ca, a solubilidade chega a apenas 40% em pH 6 (faixa de pH onde normalmente se inicia o processo de absorção e aproveitamento de nutrientes) quando se tem o fitato integro (IP6). Já para o Zn, ocorre uma redução de solubilidade total neste mesmo pH. Com doses usuais de fitase (500 FTU/kg) a maioria das enzimas promovem uma parcial ruptura de dois fósforos, formando-se um volume considerável de IP4. Esta ruptura poupa fontes de fósforo como farinha de carne ou fosfato bicálcico reduzindo o custo de formulação. Porém para a melhoria de solubilidade de minerais, não existe uma grande melhora (Figura 1).

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Figura 1.  Solubilidade de Calcio (Ca) e Zinco (Zn) em diferentes pH com a presença do anel de fitato integro (IP6), além de seus ésteres (IP5 => IP4 => IP3).

Fonte: Xu et al. (1992).

Para que se observe uma importante melhoria neste aspecto, devemos objetivar uma maior produção de IP3 (ou ésteres menores), desta forma, doses maiores de fitase são realmente necessárias. O ideal seria passar de 1500 FTU/kg (conceito de Superdosing). Se a produção do éstere IP3, ou inferior, ajuda na solubilidade de Se, Zn e Fe em pH superior a 6.0, todas as vantagens em se ter maior aporte destes micronutrientes se torna claro. No caso do peito amadeirado, a redução desta condição indesejável com uso de Superdosing de fitase deve-se a um maior aporte de Se e Fe (minerais muito relacionados com  incremento de produção de hemoglobinas que melhora a oxigenação tecidual).

Quanto maior a oxidação tecidual, menor a incidência de síndrome ascitica e de miopatias não infecciosas em frangos de corte. York et al. (2016), estudaram o uso de fitases em altas doses para redução da incidência de peito amadeirado. Os autores concluíram que a melhor solubilidade destes minerais traços, como zinco (Zn), selênio (Se), ferro (Fe), cobre (Cu) e manganês (Mn), desempenham papéis importantes no crescimento, imunidade, saúde intestinal, status antioxidante das aves; bem como numerosos outros papéis no metabolismo, como a redução da ocorrência de peito amadeirado. Os autores descrevem que esta miopatia foi reportada de forma rotineira pela indústria de frangos de corte nos ultimos anos, sendo sua origem supostamente ligados à seleção genética para rápida taxa de crescimento e maior rendimento de carne de peito. Com esta pressão por performence uma maior solubilidade de minerais adicionais, bem como o uso de Superdosing de fitase ajudam a suportar a capacidade antioxidante do frango e melhorar a taxa de oxigenação tecidual. Os autores apresentam resultados recentes que indicam que a suplementação de dietas de frangos de corte com Zn, Fe, Se, triptofano e/ou etoxiquin em combinação com níveis de Superdosing de fitase reduziu a severidade do peito amadeirado em até 50%, melhorando o ganho médio diário e a eficiência alimentar destes animais. Estes resultados podem sugerir que as superdoses de fitase com a provisão de maior solubilidade e inclusão de minerais suportam o sistema antioxidante da ave que permite melhorias contínuas no desempenho do crescimento, sem aumentar a severidade do peito amadeirado.

Estes conceitos são provenientes de uma série de estudos que estamos realizando no mundo, com grande ênfase no Brasil. Estaremos a disposição sempre para ajudá-los a elucidar e reduzir esta ocorrência na unidade industrial de nossos leitores desta coluna. Contem conosco!

Redação AI

Alexandre Brito

Alexandre Brito é médico veterinário, doutor em nutrição animal

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