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Fibra: uma palavra ampla, confusa e quimicamente mal definida

Por Alexandre Barbosa de Brito, médico veterinário, PhD em nutrição animal

Alexandre Brito

Alexandre Brito é médico veterinário, doutor em nutrição animal

20-Mai-2019 10:35 - Atualizado em 20/05/2019 10:57

A palavra fibra usada no contexto da nutrição animal é ampla, confusa e quimicamente mal definida! Assim inicia a abordagem de uma excelente revisão realizada por Choct (2015) pertencente a uma equipe de pesquisadores australianos da University of New England. Esta coluna é a primeira de duas publicações que farei junto com a equipe da Gessulli para trazermos um entendimento melhor deste nutriente importante e que começa a ser melhor utilizado pelos nutricionistas de monogástricos, em especial como estratégia predominante para modulação de microbioma, manutenção de desempenho zootécnico e redução de custo de alimento.

Para o autor, a definição é ampla porque a fibra tem sido tradicionalmente referida como um resíduo orgânico que permanece após uma série de extrações ácidas, alcalinas e/ou com uso de detergentes; é confusa porque vários termos são usados para descreve-la, tais como: Fibra Bruta, Fibra de Detergente Ácido, Fibra de Detergente Neutro, Polissacarídeos Não Amiláceos, etc... Todos estes termos referem-se a uma proporção do mesmo produto químico, porém nenhuma realmente traz o real contexto universal do que se pode definir como a fração total de fibra presente na dieta. Eles também não correspondem ou relacionam-se entre si de maneira direta – como veremos mais adiante. A palavra fibra, ainda de acordo com Choct (2015), é quimicamente mal definida pela maneira como todas essas fibras, exceto o conceito de Fibra Dietética (FD), são obtidas e dependem de extrações com solventes que não distinguem entidades químicas específicas.

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Como a nutrição animal está se cada vez mais se tornando uma ferramenta de sustentabilidade, por se esperar o máximo de desempenho com o mínimo de recursos utilizados, todos os nutrientes que são trabalhados em uma dieta necessitam ser examinados. Nos últimos anos, surgiu um grande interesse em saber como a fibra pode ser aproveitada na alimentação de aves e suínos. Para isso, as entidades químicas que compõem a fibra precisam ser elucidadas, e suas propriedades físicas e funcionais devidamente compreendidas.

Antes de evoluirmos no trabalho de 2015, se faz necessário contextualizar o interesse deste grupo de pesquisadores quanto ao tema fibra. Em uma publicação anterior (Choct 2009) avaliaram o papel de alguns nutrientes no gerenciando a integridade intestinal dos animais. De acordo com o autor, a saúde e nutrição são interdependentes. A interação entre os dois ocorre em grande parte no intestino, assim, o termo "saúde intestinal" é muito amplo e passará a requerer uma abordagem cada vez mais multidisciplinar, envolvendo fisiologia intestinal, endocrinologia, microbiologia, imunologia e nutrição (ou seja, Nutrologia). Ainda de acordo com o autor, um dos desafios do nutricionista para a década de 2010-2020 seria caracterizar a constituição do microbioma intestinal e definir como estes organismos interagem entre si e com o hospedeiro.

Este tema, realmente foi muito abordado em publicações científicas desta década. Técnicas como determinação de sequenciamento genético por 16S rRNA ou 16S rDNA, % Guanina + Citosina, passaram a ser um padrão nos estudos mais recentes sobre microbioma. Um bom exemplo de como esta técnica está ajudando na compreensão de eventos de digestibilidade e modulação de microbioma pode ser visto no trabalho de Niu et al. (2015). Estes autores trabalharam com suínos de 28 até 150 dias de idade, levando-se o sequenciamento genético (utilizando-se a técnica de 16S rDNA) e correlacionando a população intestinal com a digestibilidade aparente da fibra bruta (CF), fibra em detergente neutro (NDF), fibra em detergente ácido (ADF), proteína bruta (CP) e extrato etéreo (EE). Um total de 22 filos e 249 gêneros foram identificados em todas as amostras fecais, sendo que os Firmicutes e Bacteroidetes (bactérias especializadas em digestão de fibras) foram os filos mais dominantes em todas as amostras, porém houve grande variação no decorrer da idade, conforme descrito na Figura 1.

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Figura 1. Valores de sequenciamento de 16S rDNA de populações contidas em amostras de fezes de suínos de 28 a 150 dias de idade e sua relação com a digestibilidade aparente de nutrientes.
Fonte: Niu et al. (2015)

 

Porque o entendimento da fibra é importante neste contexto de desenvolvimento bacteriano? A resposta passa pelos principais sítios de fermentação em aves e suínos que ocorre no intestino grosso, em especial nos cecos. Neste ambiente, estas frações da microbiota realmente possui um papel de relevância e se observarmos o conteúdo nutricional dos alimentos que chegam no intestino grosso, 60% do volume total é representado pelas frações de fibra (Figura 2).

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Figura 2. Composição nutricional de alimentos completos de frangos de corte e a fração disponível após a passagem pelo íleo destes animais.
Fonte: ABVista (2019)

 

Estes conceitos nos trazem de volta a necessidade de caracterização eficiente da fibra nas dietas de monogástricos. Como mencionado anteriormente, a FD seria um melhor parâmetro que os tradicionais termos utilizados. De acordo Choct (2015), a definição de FD provoca uma grande controvérsia, porque igualmente pode ter havido numerosas, às vezes confusas, definições ao longo dos anos, incluindo definições baseadas nos efeitos fisiológicos e em métodos de determinação. De relevância direta para a nutrição de monogástricos, o autor recomenda-se definir a FD como sendo a soma do conteúdo de polissacarídeos não amiláceos totais (PNAt) e lignina (Figura 3).

Desta forma, para aumentar a produtividade e reduzir o custo de produção, é essencial que todos os nutrientes no espaço da matriz na formulação de rações sejam cuidadosamente considerados e compreendidos, inclusive a FD. No futuro, novas matrizes de nutrientes devem ser desenvolvidas para considerar todos os carboidratos presentes nos ingredientes, incluindo em especial as quantidades e tipos de oligossacarídeos e PNAt, além de suas frações solúveis e insolúveis (já que a liginina não possui papel viável na nutrição de monogástricos). Tal abordagem levará a um uso mais direcionado de ingredientes nutracêuticos, como enzimas de degradação de PNAt, aditivos a base de fibra e outros intensificadores modulação intestinal.

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Figura 3. Relação entre os vários conceitos de fibra, com destaque para a definição de Fibra Dietética – FD.
Fonte: Choct (2015)

Este material servirá de apoio e consulta para uma série de futuras publicações envolvendo modulação de microbioma intestinal, por trazer de forma resumida o entendimento de fibra dietética.

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