08-Fev-2018 15:52
Comentário

Nutrição e Nutrologia Animal - por Alexandre Brito

Uma busca constante por novas habilidades

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Eu me tornei nutricionista animal em 2002 e neste caminho já se foram 16 anos. Observei neste período uma série de transformações em nossa profissão, tais como: discussões envolvendo o uso do já consagrado conceito da proteína ideal, popularização da formulação à mínimo custo amplamente dominado pela maioria dos produtores de aves no Brasil, além do conhecimento pleno da qualidade dos ingredientes. Hoje tecnologias como NIR (sigla em inglês para a técnica de Espectroscopia de Infravermelho Próximo) e a difusão de excelentes centros laboratoriais para análises químicas por via úmida, geram grande oportunidade para o conhecimento das características nutricionais e antinutricionais dos ingredientes que utilizamos de forma rápida e precisa.

Este avanço gerou uma condição que permitiu aos nutricionistas estabelecerem novas responsabilidades em seu cotidiano. A Nutrição pode ser definida como a ciência que estuda todos os processos onde os organismos consomem, utilizam e eliminam os nutrientes. Porém esta definição é demasiada simples e enfoca apenas o aspecto fisiológico da profissão, o que limita o seu verdadeiro sentido. De fato, a nutrição animal sempre foi muito próxima a grande área de fisiologia, ou seja, o estudo do funcionamento correto do organismo dos animais.

A nutrição é uma ciência bem mais ampla e complexa, envolvendo aspectos desde a seleção e escolha dos alimentos, passando pelo contexto de vida do indivíduo até sua relação com a saúde e doença. Este é o ponto de inflexão que vivemos hoje. Com o avanço da restrição de uso de medicamentos para os animais (como apontado em minha última coluna), cada vez mais se torna relevante aos nutricionistas dedicarem-se a aspectos importantes na escolha de ingredientes, como a presença e qual o tipo de fatores antinutricionais que a dieta possui, correto balanço nutricional (que passa desde a formulação até mesmo a mistura de ingredientes em plantas alimentícias), bem como o estudo de nutrientes funcionais para fortalecer o aparelho imunológico das aves.

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"É hora de darmos um passo em direção ao futuro"

Um excelente exemplo destes novos tempos pode ser visto nos temas dos principais congressos de nutrição animal, onde discussões meramente sobre níveis nutricionais (teor de aminoácidos, energia, minerais, etc ...), estão sendo substituídos por temas mais amplos como estudo de fatores antinutricionais, termorregulação e estresse térmico; estratégias alimentares desenhadas para a saúde intestinal; alimentação de precisão; otimização do uso de ingredientes e sustentabilidade em programas alimentares (parte destes temas serão abordados em colunas posteriores). Claro que a relação entre nutrientes e desempenho zootécnico continuará sendo o papel mais importante de nossa profissão, sendo a base do que fazemos. Porém, é hora de darmos um passo em direção ao futuro.

Neste momento, faz-se necessário falarmos sobre uma nova área, a Nutrologia; termo até então utilizado apenas para a ciência médica humana, onde se caracteriza por uma especialidade da medicina que estuda, pesquisa e avalia os benefícios e malefícios causados pela ingestão dos nutrientes. Este ramo da ciência nutricional, exige um profissional que aplique o conhecimento da nutrição para a avaliação de todas as necessidades orgânicas dos animais, visando não só o desempenho produtivo, mas também a manutenção da saúde e redução de risco de doenças.

Um grande exemplo sobre como a nutrologia segue avançando no segmento animal pode ser visto no número de publicações científicas em reconhecidos periódicos sobre este tema. Para citar um exemplo, realizei uma pesquisa na revista Microbiome, periódico que iniciou suas atividades em 2013 se tornando referência na nutrologia. Em 2013, dos 31 trabalhos publicados, nenhum possuía como objetivo a pesquisa de estratégias nutricionais no impacto de modulação de flora intestinal ou saúde animal. Em 2014, este número já representou 2% do total de publicações, passando para 5% em 2015, 6% em 2016, 8% em 2017 e 10% na revista de Janeiro de 2018.

Realizando o mesmo levantamento em um periódico tradicional da avicultura, o Journal of Poultry Science. Avaliando apenas os anos de 2013 versus 2017 e as duas primeiras publicações de 2018, tivemos um aumento de 36% nas publicações de pesquisas sobre nutrologia entre 2013 e 2017; e de 96% entre 2013 e as primeiras revistas deste ano.

"Xilanase como ferramenta para elevar o desempenho de frangos de corte"

Apenas para citar duas pesquisas envolvendo o tema de nutrologia em aves, Engberg et al. (2004) avaliaram o uso de xilanase como ferramenta para elevar o desempenho de frangos de corte por uma modulação na composição da microbiota intestinal. Xilanase é uma enzima digestiva que age em uma fração específica de carboidratos fibrosos denominado de polissacarídeos não amiláceos (PNA), sendo este um potente fator antinutricional presente nos ingredientes vegetais normalmente utilizados na alimentação de frangos de corte.

De acordo com estes autores, o uso desta enzima proporciona uma degradação de PNA reduzindo a viscosidade intestinal e produzindo frações destas fibras, chamadas de arabinoxilo-oligômeros ou apenas AXOS. Estas frações ajudam na modulação de uma flora intestinal mais saudável por aumentar o volume de ácidos graxos voláteis (propiônico, acético e butírico) no ceco das aves que determinam um efeito prebiótico indireto no intestino das aves e gera o aumento de populações microbianas específicas – NUTROLOGIA!

Em outra publicação sobre o tema, Pourabedin et al. (2015), avaliaram o uso de 0,2% de AXOS na dieta de frangos de corte em comparação a um grupo controle com uso de 16 ppm de virginiamicina (VIRG). Os autores avaliaram que houve uma mudança significativa na população relativa de certas bactérias, mas a diversidade microbiana global não foi afetada pelo tratamento com AXOS ou VIRG. A suplementação de AXOS aumentou a proporção de Lactobacillus sp. no ceco, enquanto que Propionibacterium e Corynebacterium foram enriquecidos no íleo de aves tratadas com VIRG. Além disso, um aumento nas concentrações cecais de acetato e propionato foi observado em aves alimentadas com AXOS e VIRG, respectivamente; ou seja, embora estejamos falando de produtos de origem totalmente distintos, ambos interferem positivamente na proporção de famílias bacterianas de boa qualidade, promovendo uma modulação microbiana desejável e importante no intestino.

Estas estratégias, como o combate aos fatores antinutricionais, possuem grande relevância no momento de restrição a medicamentos que passamos hoje. Se por um lado temos uma pressão para reduzirmos a carga de antimicrobianos, por outro devemos reduzir ou eliminar seus efeitos deletérios na modulação de flora destes compostos, com consequente interferência na saúde das aves. Esta será uma habilidade cada vez mais exigida em nossa profissão, sendo um desafio novo para os próximos anos.

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Redação

Alexandre Brito

Alexandre Brito é médico veterinário, doutor em nutrição animal

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