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One Health e os custos globais das epidemias zoonóticas

Entre 1997 e 2009 seis grandes surtos zoonóticos custaram pelos menos US$ 80 bilhões à economia global

Humberto Luis Marques

Humberto Luis Marques é jornalista e editor das revistas Avicultura Industrial e Suinocultura Industrial

13-Jan-2021 09:55 - Atualizado em 13/01/2021 10:06

O conceito One Health (Saúde Única) será a base futura de todas as decisões relacionadas a iniciativas de prevenção e controle de enfermidades de origem zoonótica. As epidemias e pandemias geram impactos em vidas humanas e econômicos cada vez mais elevados e preocupantes. Dados do Banco Mundial apontam que doenças transmitidas a partir da relação entre animais e humanos afetam mais de dois bilhões de pessoas no mundo, causando mais de duas milhões de mortes todo ano, principalmente em países de baixa e média renda.

Só para se ter uma ideia dos impactos sociais, econômicos e para a saúde pública causados pelas zoonoses, entre 1997 e 2009 seis grandes surtos custaram pelos menos US$ 80 bilhões à economia global, conforme estimativas do próprio Banco Mundial. Mais da metade deste valor é atribuído aos casos de SARS (no início dos anos 2000), tendo ainda o surto de MERS na Coreia do Sul em 2015 gerado um impacto de US$ 8,2 bilhões. Ambos, causados por Coronavírus. Surtos de Ebola em países da África Ocidental levaram a uma redução calculada em 12% no crescimento combinado do PIB e a custos sociais e econômicos de US$ 53 bilhões na Guiné, Libéria e Serra Leoa.

Neste contexto, é possível incluir ainda as chamadas Doenças Transmitidas por Alimentos (DTA), causadas por falhas de higiene e manejos inadequados na criação dos animais ou no processamento dos alimentos, e os casos de Resistência Antimicrobiana (AMR). No primeiro, dados do Safe Food Imperative calculam em US$ 110 bilhões anuais as perdas de produtividade e os custos de tratamentos médicos em países de baixa e média renda. No caso da AMR, projeções do Banco Mundial indicam que infecções resistentes aos antimicrobianos possam chegar a um valor de US$ 3,4 trilhões até o ano 2050.

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O comum em todo este cenário é a intrínseca relação existente entre a saúde humana e a saúde animal. Desde a Segunda Guerra Mundial, mais de 60% das enfermidades tiveram origem zoonótica. O fato é que o impacto causado por elas vem se ampliando ao longo das décadas, pois as cadeias produtivas se globalizaram e as viagens e descolamentos de pessoas, produtos e animais se tornaram mais frequentes e rápidos. Desta forma, agentes patogênicos podem ser carreados de um ponto a outro do planeta em curtos períodos, vide o que vivemos atualmente com o SARS-CoV-2.

As mudanças climáticas, a degradação do meio ambiente, o avanço das áreas urbanas, o uso indiscriminado de antibióticos em medicina humana e veterinária, animais criados em adensamento e condições inadequadas e o aumento da extrema pobreza e desigualdades sociais estão entre alguns dos fatores centrais para o desenvolvimento de novas cepas patogênicas, criando condições ideias para a transmissão animal-humano e, em algum momento, humano-humano.

Claramente, os fatores aqui citados não envolvem uma única área de conhecimento. Ou seja, a sinergia e colaboração entre diversas Ciências tanto em nível local, nacional ou global passa a ser fundamental. Neste aspecto, o One Health passa a ser a grande alternativa para as ações preventivas futuras e de controle aos desafios sanitários que serão impostos ao mundo todo.

 

INVESTIMENTOS E PROGRAMAS GLOBAIS

Os desafios são gigantescos, embora haja muitas iniciativas relacionadas às práticas de One Health já em andamento no mundo. No entanto, esta visão da interface saúde animal-humana-meio ambiente precisa se expandir rapidamente. Ela não é nova, mas precisa ganhar cada vez mais força nos centros decisórios dos governos. Organismos internacionais como OIE, FAO e OMS já trabalham há muito com este conceito.

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Uma das questões é a real necessidade de investimentos. Segundo estimativas ainda do Banco Mundial, por ano, seriam necessários aplicar algo entre US$ 1,9 e 3,4 bilhões na construção, consolidação e operação de sistemas eficazes para a prevenção e controle de enfermidades em países de baixa ou média renda. O próprio Banco Mundial apoia alguns programas globais, como o que envolve a monitoria de cepas relacionadas a surtos de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP), com a participação de 62 países, financiando ainda um programa de vigilância na África Ocidental com vistas a prevenir epidemias causadas pelo vírus Ebola. Recentemente, dois projetos financiados pela instituição também tratam do One Health como resposta à pandemia de Covid-19, tanto na Índia (relacionado à preparação dos sistemas de saúde do país) quanto na China (voltado a prevenção, preparação e reposta a doenças infecciosas emergentes).

 

PROFISSIONAIS CAPACITADOS EM ONE HEALTH

Um aspecto importante no atendimento a está demanda futura (cada vez mais urgente), é a necessidade de profissionais bem treinados e capacitados. Massa crítica responsável por transformar a atual visão de mundo, compreendendo todas as interações e impactos neste complexo “ecossistema”, onde um problema local afeta o global; e variáveis das mais distintas estão conectadas. Especialistas que possam atuar, interpretar e colaborar não só com profissionais de outras áreas, mas por meios redes de informações, vigilância e controle imediato.

No mundo, programas de pós-graduação em One Health tem se expandido com força nas últimas décadas. Universidades dos Estados Unidos, Europa e Oceania, principalmente, têm estabelecido currículos específicos. No Sudeste Asiático, inclusive, a Southeast Asia One Health University Network, é um exemplo dos mais interessantes. Esta rede agrega universidades da Malásia, Indonésia, Tailândia e Vietnã com o objetivo de desenvolver habilidades em One Health das mais diversas maneiras, como, por exemplo, oferecendo bolsas de estudo para programas de pós-graduação e/ou para participação em conferências e workshops relacionados a este conceito nas mais diversas partes do mundo.

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No meio acadêmico, a Medicina Veterinária se transformou na grande difusora do One Health. “Provavelmente porque o conceito de Saúde Pública Veterinária já foi estabelecido antes do advento do conceito de One Health. Ao expandir o conceito, o desenvolvimento de programas de treinamento foi mais simples para a Ciência Veterinária do que para outras disciplinas”, afirma a pesquisadora brasileira Maria Cristina Schneider, da Georgetown University, nos Estados Unidos, em tradução livre de trecho de seu artigo sobre o tema.

O Brasil não pode ficar para trás neste processo em curso. Mesmo com iniciativas já existentes, é necessário expandir o tema nas universidades do país. Hoje, poucas agregam o tema na pós-graduação. Uma delas, que vem sendo considerada referência, é da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que incluiu a disciplina One Health em seu programa de pós-graduação, com participação dos departamentos de Nutrição e Saúde, Medicina Veterinária, Medicina e Enfermagem, Educação Física, Biologia, Engenharia Florestal, Tecnologia de Alimentos, Agronomia e Microbiologia Agrícola.

Os setores produtivos do agro também precisam estar cada vez mais atentos ao tema, participando dos debates, formalizando parcerias com os órgãos oficiais ligados à saúde humana, animal e ambiental e incentivando o treinamento e capacitação de suas equipes dentro deste conceito. O mundo irá convergir nas próximas décadas para ações cuja base decisória será exatamente o One Health. Será algo estratégico para o mercado no futuro. Nossas desigualdades sociais são enormes e não temos tratado adequadamente o meio ambiente e nossa biodiversidade. Mas, temos como avançar se planejarmos de forma estratégica este futuro, dando a devida atenção aos temas que serão cada vez mais importantes e serão parte fundamental da agenda global.

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