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Quanto os americanos plantarão de soja?

Resumo e reflexões do agro de fevereiro

Marcos Fava Neves

Marcos Fava Neves é Professor Titular da Faculdade de Administração da USP, Campus de Ribeirão Preto. Especialista em planejamento estratégico do agronegócio ([email protected]).

01-Mar-2019 10:25 - Atualizado em 06/03/2019 08:55

Vamos ao resumo dos principais fatos do agronegócio deste mês, começando pela nova projeção de safra feita pela CONAB, de 234,12 milhões de toneladas de grãos, um crescimento de 2,8% em volume e 1,3% em produtividade em relação à safra 2017/18. Mas esta estimativa já reflete um pouco os problemas climáticos, pois caiu 1,3% em relação à estimativa anterior. O total de área cultivada com grãos é de 62,63 milhões de hectares (1,5% acima da anterior). A soja, que sofreu mais com o clima de janeiro, caiu de quase 120 milhões para 115 milhões (3,4%) mas o algodão surpreendeu positivamente.

A AgRural já estima a safra de soja em apenas 112,5 milhões de toneladas, 5,7% menor que 2018/17. Alinhada com esta expectativa, A ANEC (Associação Nacional de Exportadores de Cereais) crê que as exportações de soja caiam 12% neste ano, ficando em 73 milhões de toneladas, contra as quase 83 milhões da safra anterior, vindas de uma safra de 116 milhões de toneladas. Teremos com isto perda grande de renda que entraria no Brasil.

Importante formador do preço é o que se espera da produção americana, que será plantada neste semestre. Pelo USDA, a área de soja cai de 36,06 para 34,4 milhões de hectares e a de milho vai de 36 para 37 milhões de hectares. Na soja devem produzir 113,6 milhões de toneladas, queda de 8% em relação as 123,6 milhões desta safra, derrubando os estoques em 2 milhões de toneladas. No milho a produção esperada é de 378 milhões de toneladas, bem acima das 366 milhões deste ano. Como estoques estão confortáveis, caminhamos para uma situação agora de preços internacionais estáveis. O índice de preços de alimentos da FAO subiu 1,8% em janeiro e está 3,7% abaixo de janeiro de 2018, puxado pelos lácteos principalmente.

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No Brasil a expectativa agora é para o clima na segunda safra de milho, onde são esperadas, pela CONAB, 65,1 milhões de toneladas, 21% a mais que na safra anterior. Os preços no Brasil oscilaram positivamente no mês de fevereiro. De acordo com o CEPEA, a alta foi de 4,5%. Acertei ao sugerir aos produtores não venderem grãos no artigo do mês passado. A soja subiu 1%, chegando a quase R$ 78 em Paranaguá. Segundo a CONAB o consumo de milho no Brasil na safra 2018/19 deve aumentar 4,4% chegando a 62,5 milhões de toneladas, em parte pela demanda das usinas de etanol e rações devido ao maior consumo de carnes com a retomada da economia.

Fechados os primeiros números do ano, em janeiro o agro exportou US$ 6,626 bilhões, 7,4% a mais que o mesmo mês de 2018. As importações subiram 0,5%, e o saldo ficou em US$ 5,384 bilhões (9,2% acima). Produtos florestais deram show, liderando o quadro com US$ 1,452 bilhões (26,3% a mais). Complexo soja veio em segundo com US$ 1,329 bilhão (28,9% acima) e as carnes com US$ 1,030 bilhão, queda de 13,1%. A China comprou 23% do total exportado, e cresceu 31% na comparação com janeiro de 2018. Seguem firmes as exportações de soja e milho, e só em janeiro foram 2,3 milhões de toneladas (56% a mais que janeiro de 2018) de soja, trazendo US$ 815 milhões. Esperam-se para fevereiro vendas de 6 milhões de toneladas (ANEC), já com a chegada da safra.

Já denotando alguma recuperação, em 2018 o setor de alimentos cresceu 2,08% segundo a ABIA (Associação Brasileira da Indústria de Alimentos). O total faturado chegou a R$ 656 bilhões e os empregos aumentaram em 0,5%, gerando 13 mil oportunidades adicionais aos mais de 1,6 milhões existentes. A ABIA espera em 2019 crescer ao redor de 3% em volume e vendas. Do faturamento total das empresas da ABIA, a proporção é de 22% para proteína animal, 20% para bebidas, 10% laticínios, 10% café, chás e outros cereais, 9% óleos e gorduras e quase 6% para derivados de trigo. Neste 2018 os setores que mais cresceram foram óleos e gorduras (12%), vegetais, frutas e sucos (11,2%).

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Em destaques das empresas neste mês de fevereiro, vale ressaltar a Tyson Foods que comprou as operações da BRF na Europa e Tailândia.

A recém criada Associação Brasileira da Internet das Coisas (Abinc) estima que apenas na safra 2018/19 os investimentos nas inovações tecnológicas deve passar de R$ 100 milhões. Isto traz impactos positivos na produtividade, com o maior uso de sensores, equipamentos e outros serviços que medem as atividades e condições de clima, solo, plantas e desempenho de máquinas.

Boa notícia ao setor de café, a Nestlé anunciou que o Brasil vai produzir capsulas de café com a marca Starbucks, marca que adquiriu por mais de US$ 7 bilhões no ano passado para participar mais ativamente do mercado de produtos diferenciados. As da Nespresso aqui consumidas vem da Suíça. A empresa acredita em mercado crescendo 5% ao ano nesta década. Com a aquisição, a Nestlé tem marcas para distintos segmentos de consumo com Nestlé, Nescafé, Nespresso e agora a Starbucks.

Para fechar, vamos observar agora em março as seguintes variáveis: se sai um acordo entre China e EUA (China fez proposta de comprar US$ 30 bilhões a mais em produtos agro dos EUA), a expectativa de plantio de soja e milho pelos americanos, o comportamento do câmbio e o clima incidente sobre a safrinha de milho no Brasil. Mas creio em estabilidade nos preços.  

Marcos Fava Neves é Professor Titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Confira textos, vídeos e outros materiais no site doutoragro.com

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