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Sustentabilidade na produção animal - Confiança ou Confiabilidade?

Por Alexandre Barbosa de Brito - Médico Veterinário, PhD em Nutrição Animal

Alexandre Brito

Alexandre Brito é médico veterinário, doutor em nutrição animal

26-Ago-2019 11:23 - Atualizado em 26/08/2019 11:36

Sustentabilidade é uma daquelas palavras bastante utilizadas atualmente e que serve para quase tudo que se deseja falar sobre algo positivo de uma empresa, ação, produto e/ou política pública. Empresa sustentável, ambiente sustentável, criação sustentável, economia sustentável, etc ... Não quero com isso, gerar uma crítica; ao contrário, realmente os conceitos que envolvem a real sustentabilidade dos modos de produção animal fazem total sentido, em especial na marcha de crescimento populacional que vivemos.

Minha intenção será tentar abordar este contexto em dois artigos em sequência, sob a ótica de algumas recentes publicações, gerando uma base para discussão dos leitores desta revista. Para isso, gostaria de iniciar compartilhando alguns números extraídos da base de dados da FAO (2019) levando-se em consideração a produção de alimentos e hábitos de consumo dos cinco continentes. Estes dados demonstram que o tema sustentabilidade será cada vez mais descrito pelos meios de comunicação devido ao crescimento populacional que vivenciamos, como apresentado na Tabela 01. Hoje somos um pouco mais de 7.5 bilhões de pessoas no planeta, com uma projeção de alcançarmos 8.5 bilhões em 2030.


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Esta população crescente terá uma demanda cada vez maior de nutrientes para um volume restrito de recursos. Sendo assim, práticas envolvendo um real sistema sustentável - produzir mais nutrientes com o mínimo de recursos alocados - será algo cada vez mais importante para as futuras gerações. Porém esta demanda não irá ocorrer de forma estandardizada ao redor do mundo, sendo as variações entre a produção e os hábitos de consumo realmente muito diferentes entre os continentes do globo.

Como observado na Figura 01, existem diferenças entre as quantidades que cada continente produz de fontes proteicas (sejam fontes de cerais ou carnes), além de uma igual distinção quanto ao consumo calórico diário.

Iniciando uma abordagem mais detalhada destes dados com a Ásia, este continente possui as maiores taxas de produção absoluta de alimentos do planeta, representando 48 e 42% do volume total de cereais e de carnes, respectivamente. Porém o mesmo continente aparece com um consumo de energia per capita abaixo do padrão mundial. Outro ponto importante é que este mercado consumidor representa 59,7% do volume total da população mundial. Em outras palavras, este continente é (e continuará sendo) um grande importador de proteína, por maior que seja sua produção.

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Figura 01. Relação de produção e consumo de cereais, carnes e energia mundial e por continente durante o ano de 2017; sendo: (Cereais¹ = produção mundial equivalente per capita de 1,081 kg/habitante/dia; Carnes² produção mundial equivalente per capita de 0,121 kg/habitante/dia; e o consumo mundial per capita de Energia³ de 2884 kcal/kg/dia). Fonte: FAO (2019).

Avaliando os dados da África, observamos algo oposto ao descrito anteriormente, suas taxas de produção de alimentos por habitante representam apenas 7 e 6% do volume total de cereais e de carnes, respectivamente. Com um volume populacional em 2017 de 16,6% do total mundial. Estes dados demonstram que este continente não é um grande importador de fontes proteicas, por diversas razões socioeconômicas. Porém a importação ou melhora da produtividade deveria ocorrer, pois existe um déficit notório entre produção de alimentos e o número de habitantes. Por isso, aparece como último colocado no volume de energia consumida per capita/dia. Este continente figura como uma grande oportunidade para o Brasil no futuro, visando uma expansão ainda maior de vendas de produtos agrícolas ou repasse de tecnologias produtivas nas próximas décadas (VALOR, 2019).

Os dados descritos da Oceania merecem uma avaliação criteriosa, realmente este continente possui fantástica produtividade de alimentos quando se relaciona ao número de habitantes. Mas a Oceania produz somente 1,7 e 1,9% do volume total de cereais e de carnes, respectivamente. Como possui uma população de apenas 0,5% do total mundial, os números per capita são distorcidos. De qualquer maneira, mesmo consumindo 12% acima da média global em energia per capita/dia, este continente figura como um exportador de fontes proteicas.

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Já a Europa produz 17 e 19% do volume total de cereais e de carnes, respectivamente, para uma população de 9,8% do total mundial. Este padrão poderia trazer um cenário de autossuficiência se não fosse o habito de consumo da população. O europeu possui um consumo de energia per capita/dia 17% acima da média global, o maior dos cinco continentes. Isso gera uma pressão em seu sistema produtivo e uma necessidade de importação de alimentos.

Até aqui, temos Oceania exportadora, porém com baixa representatividade em volume produzido. África com alta necessidade de elevação de consumo, porém com baixa importação e produção. Ásia com alta produção, porém devido ao elevado número de habitantes, ainda depende de fontes de proteína externa; e Europa que pelo seu estilo de consumo igualmente demanda uma pressão na matriz de produção de proteína global.

Este déficit gerado é suportado pela América que produz 26 e 31% do volume total de cereais e de carnes, respectivamente, para uma população de 13,3% do total mundial. Esta elevada produtividade, compensa o consumo energético da região (que está 12% acima da média global – muito impulsionado por Estados Unidos e Canadá), perfazendo deste continente um grande exportador para o mundo.

Esta ordem mundial coloca muita pressão neste ciclo de comercio, sendo a aptidão das Américas em produção de proteína rotineiramente colocada a prova. É fato que o consumidor é cada vez mais consciente do peso ecológico e social de suas próprias escolhas. Assim, para um setor garantir a satisfação destes consumidores, deverá fornecer respostas coerentes sobre este tema. Para isso devemos seguir um círculo virtuoso. A conservação dos recursos naturais, valorização e desenvolvimento humano e alta rentabilidade fazem destes o único caminho para a empresas rurais sustentáveis.

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E como as propriedades rurais do Brasil estão mediante a estes itens?

Em uma publicação recente realizada pelo IBGE (2018), foram identificados 5.072.152 estabelecimentos agropecuários no Brasil, envolvendo toda a cadeia de pastoreio, produtoras de grãos e carne de forma intensiva. A somatória de área utilizada por todos os elos desta cadeia ainda sim é menor do que a média utilizada pela Europa apenas para a agricultura (EMBRAPA, 2017), somando-se uma área total menor a 40% do território nacional. O restante das demais áreas referem-se à ocupação por cidades e reservas de matas preservadas.

Porém o principal ponto sobre a sustentabilidade, refere-se a uma evolução constante da eficiência produtiva além da preservação ambiental. Parte destes dados também são apresentados neste estudo, comparando-se o censo de 2017 com o de 2006. Neste período houve uma redução de 18,7% nas áreas de pastagem natural e crescimento de 9,1% nas áreas destinadas a pastagens plantadas (demonstrando eficiência no sistema de produção). O Censo mostrou ainda, uma elevação de 11,4% na quantidade de hectares destinados a matas naturais (áreas de preservação), além de um aumento de 79,2% nas áreas destinadas a silvicultura (florestas plantadas). Estes dados demonstram que estamos no caminho certo, porém ainda existe várias oportunidades a serem abordadas. Quais os caminhos que a comunidade científica projeta para o futuro sobre este tema será o alvo da continuação desta coluna.

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